14.5.13

O LOUCO

 

 

perguntais-me como me tornei louco.


aconteceu assim: um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas -
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:
"ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

homens e mulheres riram de mim e alguns
correram para casa, com medo.

quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
"é um louco!".

olhei para cima, pra vê-lo.
o sol beijou pela primeira vez minha face nua.

pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.

e, como num transe, gritei:
"benditos, bendito os ladrões que
roubaram minhas máscaras!"

assim me tornei louco.

encontrei tanto liberdade
como segurança em minha loucura: 


a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, 

 

pois aquele desigual que nos compreende 

escraviza alguma coisa em nós.


 


Gibran Kahlil Gibran.






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