14.4.13

a floresta



na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
dá-me a flauta e canta!
o canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

na floresta não existe ignorante ou sábio
quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
o saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
dá-me a flauta e canta!
o canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas

na floresta só existe lembrança dos amorosos
os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
conquistador entre nós é aquele que sabe amar
dá-me a flauta e canta!
e esquece a injustiça do opressor
pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue

na floresta não há crítico nem sensor
se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: ‘Que estranho’
sábio entre nós é aquele que julga estranho
apenas o que é estranho
ah, dá-me a flauta e canta!
o canto é a melhor loucura
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais

na floresta não existem homens livres ou escravos
todas as glórias são vãs como borbulhas na água
quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: ‘Ele é desprezível e eu sou um grande senhor’
dá-me a flauta e canta!
que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil

na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
quando o leão ruge não dizem: ‘Ele é temível’
a vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono
dá-me a flauta e canta!
o canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis

na floresta não há morte nem apuros
a alegria não morre quando se vai a primavera
o pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
dá-me a flauta e canta!
o canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência**




 


Khalil Gibran

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